Por que meu pai escuta mas não entende o que falam?

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Por que meu pai escuta mas não entende o que falam?

Autor: Dr. Herton Coifman — Professor Titular de Otorrinolaringologia da UFPR e especialista em saúde auditiva do idoso.


Se você já percebeu que seu pai ou sua mãe ouve quando você fala, mas frequentemente pede para repetir ou responde de forma desconexo ao que foi dito, saiba que isso é mais comum do que parece — e tem uma explicação médica clara.

Esse fenômeno não é simples “distração” nem “teimosia”. É um sinal importante que merece atenção.


O que significa escutar sem entender?

Escutar e entender são dois processos diferentes. O ouvido capta os sons — isso é escutar. O cérebro interpreta esses sons e transforma em linguagem — isso é entender.

Quando seu familiar diz “eu ouço, mas não entendo o que as pessoas falam”, ele está descrevendo exatamente esse problema: o som chega ao ouvido, mas o cérebro tem dificuldade em processá-lo corretamente.

Na medicina, chamamos isso de perda auditiva central ou dificuldade de processamento auditivo central (DPAC).


Por que isso acontece com mais frequência em idosos?

Com o envelhecimento, dois processos ocorrem simultaneamente:

1. A perda auditiva periférica (presbiacusia) É a redução natural da capacidade do ouvido de captar sons, especialmente os sons agudos — como consoantes (s, f, t, p). Por isso, palavras ficam “cortadas” e difíceis de distinguir, mesmo que o volume esteja adequado.

2. O declínio do processamento cerebral O cérebro também envelhece. A velocidade com que ele processa as informações auditivas diminui. Em ambientes com ruído — restaurantes, reuniões de família, televisão ligada — essa dificuldade se intensifica muito.

A combinação dos dois processos explica por que seu familiar pode ouvir a sua voz, mas não conseguir acompanhar uma conversa em grupo.


Quais são os sinais mais comuns?

Fique atento se seu familiar:

  • Pede frequentemente para repetir o que foi dito
  • Responde de forma inadequada ao contexto da conversa
  • Aumenta o volume da televisão além do que os outros consideram confortável
  • Evita situações sociais com muitas pessoas falando ao mesmo tempo
  • Fica irritado ou ansioso em ambientes barulhentos
  • Diz que “todo mundo fala muito rápido” ou “muito baixo”

Se você identificou dois ou mais desses sinais, é hora de buscar uma avaliação audiológica.


Isso tem solução?

Sim. E quanto antes for tratado, melhores os resultados.

O primeiro passo é uma audiometria — um exame simples, indolor e rápido que avalia a capacidade auditiva em diferentes frequências. Com o diagnóstico em mãos, o médico otorrinolaringologista pode indicar o tratamento mais adequado, que pode incluir uso de aparelho auditivo, reabilitação auditiva e estratégias de comunicação.

O que não se deve fazer é ignorar o problema ou tratá-lo como “coisa da idade” que não tem solução.


Qual é a relação entre perda auditiva e demência?

Essa é uma das descobertas mais importantes da medicina nos últimos anos.

Um estudo publicado na revista Lancet em 2020 identificou a perda auditiva como o maior fator de risco modificável para demência — respondendo por cerca de 8% dos casos.

Isso significa que tratar a perda auditiva não é apenas uma questão de qualidade de vida. É uma forma de proteger o cérebro do seu familiar contra o declínio cognitivo.

Como eu costumo dizer para os meus pacientes e alunos: tratar a audição é tratar o cérebro.


O que você pode fazer agora

Se você reconheceu os sinais descritos neste artigo no seu pai, na sua mãe ou em outro familiar idoso, não espere a situação piorar.

O primeiro passo é simples: marque uma consulta com um otorrinolaringologista e solicite uma audiometria completa.

Para te ajudar nesse processo, preparei um guia gratuito chamado “Ouvir Bem para Viver Melhor” — com informações claras sobre perda auditiva, como funciona o aparelho auditivo e o que esperar do tratamento.

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Conclusão

Seu familiar escuta mas não entende porque o problema não está apenas no ouvido — está também no processamento cerebral do som. Isso tem nome, tem diagnóstico e tem tratamento.

Quanto mais cedo a perda auditiva for identificada e tratada, maiores as chances de preservar não apenas a comunicação, mas também a saúde cognitiva e a qualidade de vida do seu familiar.


Sobre o autor: Dr. Herton Coifman é Professor Titular de Otorrinolaringologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), médico associado ao Hospital IPO em Curitiba e autor do livro “Otorrinogeriatria”. Com mais de 40 anos de experiência clínica e magistério, é referência nacional em saúde auditiva do idoso.

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