
Você já reparou que seu pai ou sua mãe pede para repetir as frases com frequência, evita reuniões barulhentas ou simplesmente para de participar das conversas em família? Esses podem ser os primeiros sinais de surdez — e quanto antes for identificada, melhor.
O que é surdez?
A surdez é a perda parcial ou total da capacidade de ouvir. Ela pode afetar um ou os dois ouvidos e variar de grau leve a profundo.
No caso dos idosos, a forma mais comum é a presbiacusia — o envelhecimento natural do sistema auditivo. Com o passar dos anos, as células ciliadas da cóclea (o caracol do ouvido interno responsável por transformar o som em sinal elétrico) vão se deteriorando progressivamente.
O resultado? O ouvido capta os sons, mas o cérebro tem cada vez mais dificuldade de interpretá-los.
Ouvir e entender são coisas diferentes
Esse é um ponto fundamental que poucos compreendem.
O ouvido funciona como um microfone — ele capta o som e o transforma em impulsos elétricos que viajam pelo nervo auditivo até o cérebro. É no cérebro que acontece o verdadeiro trabalho: reunir esses fragmentos, reconhecê-los e transformá-los em uma mensagem compreensível.
Quando esse processo falha, chamamos de Transtorno do Processamento Auditivo Central (TPAC) — e é por isso que muitos idosos dizem exatamente isso:
“Eu ouço, mas não entendo o que falam.”
Quais são os graus de surdez?
A perda auditiva é classificada em quatro graus:
Leve — dificuldade em ambientes barulhentos, pede para repetir com frequência
Moderada — dificuldade em conversas normais, aumenta o volume da televisão
Severa — só entende com voz alta e próxima
Profunda — não consegue compreender a fala mesmo com amplificação
Surdez e demência: a conexão que assusta
Essa é uma das descobertas mais importantes da medicina nos últimos anos e precisa ser dita com clareza:
A surdez não tratada é o principal fator de risco modificável para demência.
Segundo a Comissão Lancet de 2020, a perda auditiva responde por cerca de 8% dos casos de demência — mais do que obesidade, tabagismo e sedentarismo.
Uma perda auditiva leve dobra o risco de demência. Uma perda moderada aumenta esse risco em até cinco vezes.
Por quê? Porque quando o cérebro é privado de estímulos sonoros, ele reduz sua atividade. As conexões neurais enfraquecem. A memória, a atenção e o raciocínio são afetados. O isolamento social — consequência natural de quem não ouve bem — acelera ainda mais esse processo.
Como diz o Dr. Herton Coifman: “Tratar a audição é tratar o cérebro.”
Quais são os sintomas da surdez no idoso?
Fique atento se seu familiar:
- Pede para repetir frases com frequência
- Responde de forma estranha ao que foi dito
- Aumenta o volume da televisão além do normal
- Evita festas, restaurantes e ambientes barulhentos
- Parece distraído ou “na dele” durante conversas
- Tem dificuldade em entender ao telefone
- Começa a se isolar socialmente
Esses sinais não são teimosia nem distração — são sintomas que merecem atenção médica.
O que causa a surdez no idoso?
Além do envelhecimento natural, outros fatores aceleram a perda auditiva:
Fatores que aceleram a surdez:
- Exposição prolongada ao ruído ao longo da vida
- Tabagismo e consumo excessivo de álcool
- Hipertensão arterial e diabetes
- Uso de medicamentos ototóxicos (que lesam o ouvido)
- Sedentarismo e obesidade
- Infecções e otites não tratadas
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico da surdez é simples, indolor e rápido — basta realizar uma audiometria.
O exame mede a capacidade auditiva em diferentes frequências e identifica o grau e o tipo de perda. O Dr. Herton Coifman é enfático: a audiometria deveria ser rotina na consulta geriátrica, assim como o exame de próstata ou a mamografia.
“A surdez do idoso é subdiagnosticada e subtratada. A detecção precoce é fundamental para uma intervenção mais eficaz.”
Qual é o tratamento para a surdez?
O tratamento depende do tipo e grau da perda auditiva. As principais opções são:
Aparelho auditivo (AASI) — indicado para a maioria dos casos de presbiacusia. Amplifica o som e reduz o esforço cognitivo do cérebro para interpretar a fala.
Reeducação auditiva — treinamento com fonoaudiólogo para “reensinar” o cérebro a processar os sons. É especialmente importante após períodos longos de privação auditiva.
Implante coclear — indicado para casos de surdez profunda onde o aparelho não é suficiente.
Um ponto importante: o aparelho auditivo não é uma compra — é um processo. A adaptação exige acompanhamento médico e fonoaudiológico, paciência e persistência.
Por que muitos idosos resistem ao aparelho auditivo?
Estudos mostram que quase metade dos idosos que precisam de aparelho auditivo se recusa a usá-lo. Os motivos mais comuns são vaidade, estigma e a sensação de que “não é tão necessário assim”.
Mas a reflexão que o Dr. Herton propõe é simples e direta:
“Quem aparenta mais a surdez? Quem usa um dispositivo auditivo discreto ou quem se isola por não acompanhar uma conversa?”
A recusa ao tratamento leva ao isolamento social, à depressão e ao declínio cognitivo acelerado — um preço muito alto pela vaidade.
Conclusão
A surdez no idoso não é inevitável nem irreversível em seus efeitos. Com diagnóstico precoce, tratamento adequado e acompanhamento profissional, é possível preservar a audição, proteger o cérebro e garantir que seu familiar continue ativo, autônomo e conectado ao mundo.
Como diz o Dr. Herton Coifman:
“A idade tem de ser funcional, não cronológica. Enquanto estamos vivos, tem de valer a pena.”
Se você suspeita que seu pai, sua mãe ou outro familiar está com dificuldade auditiva, não espere. O primeiro passo é simples: uma consulta com otorrinolaringologista e uma audiometria.
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Sobre o autor: Dr. Herton Coifman é Professor Titular de Otorrinolaringologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), médico associado ao Hospital IPO em Curitiba e autor do livro Otorrinogeriatria. Com mais de 40 anos de experiência clínica e magistério, é referência nacional em saúde auditiva do idoso.